Sem concorrência, Systemica vence 1º leilão do país de floresta desmatada para explorar crédito de carbono
28/03/2025
(Foto: Reprodução) Empresa foi a única no leilão do governo do Pará na B3. Ela deve recuperar área degradada e pode explorá-la por 40 anos. Modelo é inédito e pioneiro no Brasil, segundo governo do Pará. Governo do Pará vai conceder gestão na Unidade de Recuperação Triunfo do Xingu, em Altamira
Bruno Cecim/Agência Pará
madeireiros
A Systemica, empresa ligada ao banco BTG Pactual, venceu o primeiro leilão do Brasil para recuperar uma floresta desmatada com objetivo de comercializar crédito de carbono no Pará. A vencedora foi a única que apresentou oferta para concessão para reflorestamento da Unidade de Recuperação Triunfo do Xingu em Altamira, no sudeste do Pará, realizado pelo Governo do Pará nesta sexta-feira (28) na sede da B3, em São Paulo.
De acordo com o governo paraense, o prazo para concessão é de 40 anos para recuperar mais de 10 mil hectares de floresta em terreno público. Essa área permite a captura de 3,7 milhões de toneladas de carbono. O investimento privado é de R$ 258 milhões, com expectativa de comercializar 350 mil créditos de carbono e gerar receita total de R$ 869 milhões, além de 2 mil empregos.
O terreno concedido é parte da Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu, uma das mais pressionadas pelo desmatamento ilegal na Amazônia. A Systemica já desenvolve outro projeto de REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal) em uma área também de 10 mil hectares na mesma APA desde 2022.
A área atualmente degradada deve passar por restauração ecológica. Depois, este terreno reflorestado será usado para comércio de crédito de carbono. Empresas que não conseguem reduzir emissões de gás carbônico podem comprar créditos da Systemica. Uma tonelada de gás carbônico pode ser compensada com uma unidade de crédito de carbono.
"Estamos certos que o sucesso deste certame aponta para o Brasil um novo modelo estratégico para recuperar seu estoque florestal com a participação direta da inciativa privada. Que com o ativo florestal recuperado, possamos permitir a comercialização do crédito de carbono gerado nessa área, avançar na recuperação de áreas degradadas no nosso país, trazendo efetivamente a sustentabilidade ambiental, econômica e social", afirmou o governador do Pará, Helder Barbalho (MDB) após o leilão.
Segundo ele, com esta primeira experiência no país, o mercado deve perceber a "solidez do que o Estado está concebendo" e a expectativa é que mais empresas participem desses leilões.
Este é um modelo inédito no Brasil e um projeto piloto de um mercado regulamento há poucos meses no país: A lei que regulamenta o setor foi sancionada pelo presidente Lula em dezembro de 2024 e é uma forma de diferentes empresas compensarem parte das emissões de gás carbônico, o CO2, um dos causadores do aquecimento global.
Confira os destaques do g1 Pará nesta sexta-feira, 28, com Taymã Carneiro
"A concessão promoverá a recuperação da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos, além da geração de empregos, capacitação técnica da população local, incentivo à criação de viveiros e fortalecimento das cadeias produtivas regionais", disse o governo do Pará.
O g1 pediu posicionamento à Systemica sobre as próximas etapas da concessão e aguarda retorno. Duas interessadas na concessão apresentaram envelopes na sede da B3, empresa do mercado financeiro, na segunda-feira (24), mas uma delas foi desclassificada antes do leilão desta sexta.
O edital foi anunciado em novembro no Azerbaijão durante a Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas da ONU (COP 29). Após anúncio da vencedora nesta sexta-feira (28), haverá três dias para recursos - veja aqui o edital completo.
Ainda segundo o governo, "a Systemica apresentou proposta de outorga variável de 6% sobre a Receita Operacional Bruta anual da concessão, além de uma outorga fixa de R$ 150 mil, a ser paga na assinatura do contrato", que deve ocorrer em dois meses. O Estado do Pará pode arrecadar mais de R$ 46 milhões com essas outorgas.
LEIA TAMBÉM:
O que é o crédito de carbono? Entenda o mercado que pode gerar recursos para quem mantém a floresta em pé
Piloto na APA Triunfo do Xingu
O governo do Pará pretende conceder mais 20 mil hectares também para crédito de carbono na mesma região ainda em 2025. No total, a APA Triunfo do Xingu tem 1,6 milhão de hectares, compreendendo os municípios de Altamira e São Félix do Xingu, no sudoeste do Pará.
APA Triunfo do Xingu: imagens de satélite mostram o antes e o depois do desmatamento na região.
Imazon/Planet
A atual concessão, de 10 mil hectares, prevê e permite exploração econômica por meio de créditos por serviços ambientais, produtos madereiros e não madeireiros e serviços florestais, além da exploração de crédito de carbono florestal.
Segundo a Secretaria de Meio Ambiente, há contrapartidas do Estado e do concessionário em ações territoriais e comunitárias.
Para o concessionário, o edital prevê:
a contratação e a capacitação de mão de obra local;
apoio às cadeias produtivas agroflorestais;
parcerias comunitárias para fornecimento de insumos, mudas e sementes para a restauração, entre outros.
A contrapartida do Estado é:
"autorizar o uso da área por 40 anos, via PAI, Plano de Atuação Integrada, criado sob medida para o ordenamento territorial, com regularização fundiária e ambiental,
investimentos em segurança, infraestrutura, logística e comunicações, bem como equipamentos e serviços públicos para as comunidades".
Mercado de carbono ganha cada vez mais discussões e espaço; entenda
Leia as últimas notícias do estado no g1 Pará